Psicanálise

A função subjetivante da psicanálise

Uma das funções da psicanálise é produzir o efeito sujeito. Produzir, portanto, subjetividade. Esse efeito, anterior ao próprio surgimento das teoria e prática psicanalítica, é produzido, continuamente, desde o início da história de cada um.

Nascemos num mundo banhado de significados pela linguagem, pela cultura. Nesse sentido, o trauma do nascimento (aproveitando o termo do psicanalista Otto Rank) não se explica simplesmente pelo fato de o bebê sair do confortável útero materno.

O traumático para cada um é ingressar em um mundo onde os outros falam uma língua que não é possível entender inicialmente. A mãe – ou qualquer outra pessoa que vá a essa função – traduzirá, à medida do possível, os acontecimentos internos e os eventos do mundo (externos, portanto) para o bebê.

Um exemplo clássico é o grito, o choro do bebê. Essa descarga motora através da voz do pequenino ser, será escutada e interpretada pela mãe. Ela nomeará o grito do bebê para si mesma e, em consequência, para ele também.

Poderá interpretar o grito como sendo uma dor de dente, por exemplo. Sua leitura poderá ser correta ou não, porque ela também está aprendendo como seu filho é. Algumas mães desenvolvem tanto essa habilidade que são capazes de escutar as diferentes tonalidades dos gritos de seu bebê, distinguindo, acertadamente, os significados específicos para cada choro de seu filho (seja o seu choro devido a uma dor de ouvido, por fome ou até mesmo por manha).

Ao ligar seu choro a um significado específico, o outro (a mãe, por exemplo) produz um efeito subjetivante para o bebê. Escutando sua mãe nomear o que sente poderá se apropriar aos poucos da linguagem para um dia poder dizer a ela quando sentir a barriga vazia: “tenho fome!” 

Para cada um se tornar sujeito é imprescindível a existência do outro, que transmitirá ao futuro sujeito seu estilo de traduzir em palavras os mais diversos acontecimentos. Descobertas do tipo: “Ah! Isso quer dizer aquilo!” ou “o vazio que sinto na barriga significa fome”, são exemplos do que estamos chamando de efeito sujeito.

Ao leitor que nos acompanhou até esse ponto, pode ocorrer a seguinte pergunta: “se esse efeito está presente desde o início da história de cada sujeito, porque uma das funções da psicanálise é produzi-lo?”    

Muitas vezes, o que motiva alguém a procurar ajuda psíquica é supor que um outro (no caso o analista) sabe algo a respeito do que lhe ocorre. Sujeito suposto saber foi o nome dado pelo psicanalista francês Jacques Lacan a essa suposição fundamental quando alguém procura ajuda psicológica.

De fato, os analistas em geral tendem a saber uma porção de coisas. Sabem, por exemplo, que aqueles que o procuram para falar de seus sofrimentos, muitas vezes esperam dele algo similar ao que suas mães faziam: nomeiem para eles o que estão sentindo. 

Muitos no início de sua análise, quando se referem ao que lhes faz sofrer, falam, por exemplo, que sentem “uma coisa” e não conseguem ir muito além na descrição do que lhes afeta. Podem acrescentar, no máximo, que se trata de “uma coisa ruim”. Falam, portanto, de um desconhecimento a respeito de algo que lhes acontece.   

Eventualmente, o analista traduzirá para o paciente algumas questões trazidas por ele, colocando em jogo o conceito de inconsciente para explicar a seu analisante o que ele acredita desconhecer.

No entanto, o paciente tomará consciência ao longo das sessões que as descobertas serão feitas por ele e não por seu analista. A análise de discurso do paciente feita pelo psicanalista (isto é, suas perguntas, apontamentos, interpretações, etc) é um convite para que o próprio paciente produza saber a respeito de si.  

Dessa forma, ele poderá, por exemplo, descobrir em algum momento de sua análise que a “coisa ruim”  que sente, está relacionada a alguma passagem dolorosa de sua história. A partir de uma revelação como essa pode fazer uma ligação lógica do tipo: “ah, o que sinto hoje está relacionado com esse evento que vivi no passado!” 

Está aí a grande diferença subjetiva proporcionada por uma experiência de análise: no lugar de uma subjetividade produzida pelo outro que nomeia o que o sujeito sente, uma subjetividade produzida pelo sujeito através de um saber baseado em sua própria história.